4.11.07

A DIFERENÇA DE SER ESTRANGEIRO

Há tempos, na Guiné-Bissau, perante uma situação delicada de cariz político-militar (como são 99% das situações delicadas na Guiné-Bissau) perguntei a um camarada jornalista guineense se não se juntava a nós (estrangeiros) na cobertura.

Resposta:

- Vão vocês. Vocês são brancos e eles [militares] não vos chateiam. E se chatearem têm uma embaixada que vos ajuda. Eu, se tiver um problema, dependo de mim próprio.

A postura deste jornalista bissau-guineense serve-me de mote para a situação que vive Moussa Kaka, correspondente da RFI no Níger.

Moussa Kaka está preso desde o dia 20 de Setembro, porque o tirano Mamadou Tanja, presidente do país onde nasceu Moussa, achou que o jornalista tinha atentado contra a segurança de Estado. O que fez Mussá Kaka? Foi ouvir o outro lado do conflito que opõe o Níger aos rebeldes tuaregues. Quando voltou do deserto foi preso.

E se o caso se tivesse passado com um jornalista francês (ou de qualquer outra nacionalidade)? Em primeiro lugar o tirano Tanja (que actuou como bombeiro por diversas vezes na Guiné-Bissau, no mandato de Henrique Rosa, para evitar que os militares tomassem conta do pai's) não teria mandado prender o jornalista. Em segundo, caso tivesse tido essa ousadia, as autoridades francesas (ou do país de origem do jornalista) teriam actuado de imediato (admito que estejam agir neste caso, mas não da mesma forma como agiriam se fosse “um dos seus”) (Veja-se a viagem relampago que Sarkozy fez hoje - e muito bem - ao Chade, para trazer de volta os jornalistas franceses).

Se é verdade que em países não democráticos TODOS os jornalistas estão à mercê dos tiranos que ali mandam, não é menos verdade que quem mais sofre acabam por ser os jornalistas nacionais desses países. A eles a nossa homenagem.

ABAIXO-ASSINADO PARA A LIBERTAÇÃO DE MOUSSA KAKA

Enviar e_mail para: moussa@rfi.fr


ADENDA: Já que falamos de jornalistas, uma palavra para o recém-criado Observatório da Liberdade de Imprensa e Ética Jornalística da Guiné-Bissau (OLIEJ). Começaram discretos, mas no silêncio vão fazendo o que há a fazer. E é muito. Os nossos parabéns e votos de bom trabalho. Contem com o AFRICANIDADES para ajudar a “fazer barulho”.

3 comentários:

semdiamantes disse...

Há profissões de muito risco, mas o risco ainda é maior qdo a realidade é Africa! Ao menos houvesse liberdade e isso não custa, dinheiro nenhum, digo eu??!!

Anónimo disse...

Quanto mais amadureço no conhecimento menos sei de África! Não é que a tirania e a prepotência me apanhem de surpresa mas…Africa…África…estamos no século XXI e quanto tempo mais vais levar para te orgulhares da tua gente e dar-lhe o valor que merecem como gente que quer ser "pessoa" na sua própria terra!

J2mseravat

Brikebrok disse...

os jornalistas franceses do Chade testemunharam tudo, filmaram e calaram ... não sei se mereciam assim tanto serem "salvos" ...