24.10.07

UMA CASA EM BAMAKO

Quando se passa algum tempo em África a tendência é deixar-se vencer pelo pessimismo. A malfadada corrupção mina a sociedade, a máquina que é o aparelho político e social aparece cheia de gangrena e tarda a arrancar… Nada evolui. É assim a Guiné-Bissau, por muito que me custe dizê-lo. A Guiné (Conacri) é irmã gémea.

Há, no entanto, excepções.

Em 2004 passei pelo Mali e a impressão que retive foi positiva. No regresso, 3 anos depois, estou atónito. Boquiaberto. Espantado, estarrecido e maravilhado. A capital fervilha de vida. A economia cresce. O sistema administrativo funciona, célere, com uma taxa apenas (a oficial). Os polícias (mais ou menos) vão-nos deixando circular. Só boas notícias, a que já não estava habituado há muito tempo.

Mas há mais. A imprensa respira liberdade. Critica. Diz mal. Comete exageros (também fazem falta). As ruas de Bamako têm viadutos. Os carros circulam, na hora de ponta, com civismo e paciência. As estradas que nos levam ao interior são feitas de alcatrão e não de buracos. Os telefones funcionam (e são baratos). Abrem as portas do mundo. A Internet também! As mulheres ocupam cargos de relevo e aceleram de mota nas avenidas largas das cidades capitais de região, em direcção ao emprego. Não ficam em casa, a trabalhar para o marido ou à sua espera! As pessoas são felizes, e demonstram-no nas conversas. Não são ricas, mas recebem o merecido salário ao fim do mês. E isso chega-lhas (pelo menos) para viver dignamente.

Saltar de Bissau ou Conacri para Bamako é saltar da Azaruja (País Alentejo) para Paris ou Londres. Quem aqui chega, vindo de lá, é uma espécie de campónio de patilhas pelo meio da cara, samarra pelos calcanhares e ramelas nos olhos. O contrário do iluminado. Um boçal cidadão que nem as luzes dos semáforos reconhece. (O vermelho significa avançar ou parar?…)

Afinal nem tudo é mau em África. Era em países como o Mali que alguns políticos da Guiné-Bissau (e de outros países africanos que não saem da cepa-torta) deveriam fazer estágio. Aqui, e não em Lisboa, Paris, Bruxelas onde têm as suas primeiras habitações (passam lá mais tempo que em Bissau). Porque não compram eles casa em Bamako?

PS – Uma ressalva, para quem não conhece… O Mali não tem petróleo, fosfatos, diamantes, peixe, bauxite, madeira.... Metade da sua superfície é areia ocupada por tuaregues que colocam problemas ao poder de Bamako. A outra metade, argila que só produz 3 meses por ano.

Em breve mais notícias deste país à beira-Sahara plantado.

4 comentários:

Anónimo disse...

Meu Caro Jorge, gostei deste seu post. Porque revela algum conhecimento profundo da realidade de alguns países africanos, nomeadamente da Guiné-Bissau. Tudo aquilo que escreveu espelha a verdade nua e crú de muitos países. Eu costumo dizer aos meus colegas que em áfrica só aqueles países para os quais a "natureza não foi muito benevolente" com eles é que têm dirigentes políticos com cérebro, porque os outros, sobretudo os da Guiné-Bissau e a sua irmã gémea Guiné-Konacri, no lugar da "massa cinzenta" encontra-se silicone. Porque não é aceitável que países como Cabo Verde ou Mali, que em termos de recursos naturais nada têm, até a própria chuva é escassa, terem o nível de vida para as suas populações que os outros os quais a nutureza deu minerais, floresta, chuva, etc, etc viverem com as maõs estendidas e os seus dirigentes comprarem apartamentos no Parque Expo em Lisboa, ou nas Avenidas de Paris ou Bruxelas. Depois aparecem imbecis como Fadul a quererem pôr governos em tribunal por falta de pagamentos de salários, quando a pouco tempo atrás ajudaram a derrubar governos que pagavam esses mesmos salários. Triste vida a dos guineenses.
José Carlos

Térsio Vieira disse...

zralnezxNão conheço Guiné- Conacri nem tão pouco Mali. Mais a simplicidade e profundidade do seu post permite compreender o drama e a imcopetência dos nossos líderes africanos...

Bons textos tens por aqui...

DEUS lhe abençoe e lhe guarde!

Abraços!

dedoscomovermes disse...

eu estava a ler a postagem e a perguntar-me pola causa da diferença. E chegou esse parágrafo revelador: é o que Mali NOM tem, o que lhe faz viver melhor.

semdiamantes disse...

Olá J.R.

Está aqui uma bela historia para contar à minha filha ao adormecer, fala de Africa numa outra perspectiva, uma Africa onde as pessoas são as personagens principais e são felizes, porque infelizmente quando lhe falo de Africa só posso falar da sua beleza nutural e de um paraiso onde os so animais selvagens vivem livres e felizes!!

Bem hajas J.R. ( usa-se mto em Portugal este termo e lhe acho mta graça, e até vem mm acalhar -;))!!