12.1.08

REVISTAS DE… FICAR EM CASA

Algumas revistas de viagens devem irritar quem ama viajar. A mim não, pois há muito que percebi o embuste que são e, por isso, não as compro.

Algumas razões:

1) Quando falam de destinos “tropicais” (uma palavra bonita para países pobres) é de bradar aos céus. Desde logo porque recomendam tantos medicamentos para a profilaxia das milhentas doenças que aqui existem que, se os leitores os tomassem todos, adoeciam antes de partir.

2) Depois, porque só falam de hotéis bonitos e caros. Ora, quem compra esse tipo de revistas não tem dinheiro para entrar nesses hotéis. E quem tem dinheiro para entrar nesses hotéis não compra essa merda de revistas.

3) Depois, porque mostram sempre as mesmas imagens tipificadas e idiotas: elefantes a beber água ao pôr-do-sol, praias de águas turquesas com redes de dormir penduradas em coqueiros…

Imagino a decepção dos leitores, uma vez nos locais, ao repararem que:
- onde os elefantes bebem água o sol não se põe (a foto é de qualquer outro parque natural);
- a água azul-turquesa só existe na maré-cheia, e que o resto do tempo a praia é um lodaçal de caranguejos e pobres pescadores;
- que os coqueiros já foram comidos pela água salgada e que as únicas redes dos hotéis são as mosquiteiras das camas.

4) Como se não bastasse, alguns dos argumentos utilizados para levar o leitor até aos destinos, hotéis e restaurantes são, no mínimo, patéticos. Vejamos:

Rotas do Mundo de Janeiro. Para justificar que não a comprei (dificilmente o faria), refira-se que me foi oferecida num voo.

Destino, Marraquexe. Sugestão: dormir no Riad El Fenn. Porquê? Porque “pertence a Vanessa Branson, irmã do poderoso patrão da Virgin”, e porque “tem cinco piscinas, um spa, cinema, um bar e um restaurante”. O patego português, que vai para o Algarve em Agosto, não para ir à praia e descansar, mas para ver o casal Mccan a sair da Igreja da Luz (são estes os únicos tugas que compram uma tal revista) está nesta altura do texto quase convencido em ir até Marraquexe. Mas o jogo de cintura, por parte do jornalista (jornalista?), não terminou ainda: “Annie Lennox, Sacha Baron Cohen entre outras personalidades ficaram aqui”. O argumento que faltava. A escolha está feita quando o patêgo tuga descobre que afinal dormir nas camas onde esta gente se espojou antes custa 270 euros por noite. Afinal o parque de campismo da Lagos é bem mais barato (e fica mais próximo da Igreja da Luz).

O mau jornalismo em algumas revistas de viagens é gritante. E a falta de ética também, pois na generalidade as viagens e as estadias até muitos dos destinos apresentados são pagas por companhias aéreas e hotéis com interesses nesses destinos, sem que essa oferta seja mencionada no texto.

Termino com mais uma pérola da Rotas e Destinos de Janeiro. O Malawi simplesmente desaparece da infografia que “pretende” mostrar ao leitor onde fica a Zâmbia.

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O falso mapa da revista, sem Malawi.

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Um mapa bem desenhado, onde o Malawi existe.

Mau jornalismo. Definitivamente.

1 comentário:

Alentejano hemodialisado disse...

A mim por acaso há uns anos saíu-me num sorteio uma assinatura de um ano da "Volta ao Mundo", que é igual à Rotas e Destinos.Uso as folhas para forrar os fundos das gaiolas dos pássaros...