7.9.07

O OPERADOR DE CINEMA

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Em Bafatá, a mais romântica das cidades guineenses, há um homem que se diz “operador de cinema”. Já não há ali sessões, mas o operador permanece, à espera do dia em que possa voltar a desempenhar a sua profissão.

O velho mandinga, de nome impronunciável anotado num bloco perdido dias depois, é hoje o guarda do salão do Sporting Clube de Bafatá. Desconsolado com o cargo que ocupa, o homem agarra na mão de quem lhe pergunta o que faz. Leva-o escadas acima e prova-lhe, com factos, que ele é um verdadeiro operador de cinema. No alto do salão do Sporting Clube de Bafatá, numa sala pequena e escura, que tresanda a bafio e nostalgia estão os dois projectores que o velho mandinga operou em tempos.

Com a mão do visitante presa na sua o homem explica como funcionavam as máquinas. Fala no presente, como se às ordens dos seus dedos vá corresponder um movimento dos mecanismos corroídos pela ferrugem.

- Aqui liga-se a lâmpada e aqui desliga-se. Aqui mete-se a bobine. Se ela encravar temos que carregar neste botão. Aqui puxamos a bobine para trás, quando o filme chegar ao...

A frase, tal como o filme acabado de projectar, não chega ao fim. A mão do velho mandinga desprende-se para limpar uma lágrima.

- Eu construí tudo isto, sabe? Entrei aqui como servente. Fui eu que capinei o mato antes de se fazerem as paredes desta casa.

Comove-se de novo, limpa as lágrimas e torna a agarrar-me na mão.

- Venha ver…

No exterior da sala mostra-me o edifício-sede do clube, cujo telhado serve hoje de chão ao capim. E o ringue de jogo, onde já não se joga. De mão dada, vamos depois pelas ruas de Bafatá, sentir o cheiro que tem – e de que é feita – a saudade no pensamento de um africano.

A Bafatá de hoje é, tal como os filmes projectados em tempos no Sporting, uma realidade a preto e branco: graciosa mas tristonha ao mesmo tempo. Uma comédia para chorar. Todos fugiram da cidade, até as pedras da calcada, um dia alinhadas sobre a terra vermelha que hoje se mostra desavergonhada a quem passa. Ficaram meia dúzia de pedras, como algumas pessoas (mais que meia dúzia) ficaram também, para perpetuar na memória do mundo e dos homens que ali já viveu gente. Muita gente.

Embrulho a nostalgia do operador de cinema numa uarga de adeus bebida em conjunto. Parto, sereno, muito mais que ele, e prometo a mim mesmo voltar um dia, com um computador portátil, um projector digital e um gerador, para mostrar ao velho mandinga como são projectados os filmes de hoje.

5 comentários:

Anónimo disse...

É por estes posts maravilhosos, pela sua perspicácia e forma tão agravável de escrever que venho todos os dias a este blog.

Patrícia

Martin Pawley disse...

Magnífico post!

Csm disse...

Magnífico!!!
Espero que tenhas oportunidade de lá voltar... Merece concerteza o técnico de cinema, e mereces tu ver a reacção de surpresa desse homem!!

Cada vez que espreito o teu blog, e faço-o sempre que posso, apetece-me dizer para não saíres daí nunca... Como sabe bem ler as histórias dessa gente escritas pela cabeça (dedos) de um "branco"!

Beijo para ti e beijo para a Cláudia!!
(Desculpa usar este espaço falando de outros assuntos, mas tinha de felicitar os dois pelos acontecimentos mais recentes!!! :-)))

Cármen

Felipe Emiliano de Andrade disse...

Belíssima história! E, excelente narração que me fez sentir-me em Bafatá, com uma das mãos presa ao velho mandinga, subindo e descendo alguns lances de escada… Parabéns!

Na cidade em que eu moro existe uma comunidade quilombola, mas só fiz uma matéria nessa localidade. Se estiver interessado...

Mais uma vez, parabéns!

Boy disse...

Muito bom
Sou Operador de cinema há mais de 10 anos e estou para Operar um Projetor Imax e fico emocionado em como o amor de um Operador dura pela vida toda, gostaria que no Brasil e no mundo todo nós Operadores fossem reconhecidos como verdadeiros Profissionais.