
Em Varela não há nada, para além de arroz e peixe (a comida de todos os dias) e conformismo. A população, isolada desde Agosto, ainda não foi a Bissau, porque os transportes são poucos e o preço para chegar aos frescos gabinetes da Praça é alto. Também não recebeu a visita de nenhum representante do governo central, que o caminho só dá para os da terra, loucos ou bichos e eles não se enquadram em nenhuma das categorias!
Em Varela também não há imigrantes. Por estrada tão longa é impossível chegar gente aos magotes. Já ali passaram clandestinos, é certo, uma vez ou duas, poucos. Desde então nunca mais, garantem os da terra. Por isso não percebem o "ACUDAM" dos seus governantes, lá longe, em Espanha (onde quer que isso seja) nem as visitas dos jornalistas.
Em Varela não há nada, para além de arroz e peixe. Nem arame ou lata, para as crianças fazerem carrinhos de brincadeira e sonho. Os carrinhos dos mais novos fazem-se agora com uma caixa de medicamentos, dos que chegam pela mão das irmãs católicas de Suzana (só elas ou o padre se aventuram pelo lamaçal – não são da terra, nem são bichos. São loucos!). Uma caixa de medicamentos vazia faz a vez de habitáculo, dois pauzinhos imitam os eixos e seis limões são as rodas.

Qual a marca destes carrinhos?, pergunto às duas crianças que os trazem presos por cordel (ainda há cordel em Varela!). Chamam-se “Utopia”, respondem. E onde vão?, insisto. À ponte de Cassolol. Vão levar as mulheres grávidas e doentes à candonga que as espera do outro lado. Na volta trarão todos os que poderão (poderiam) fazer algo por Varela. Para essas pessoas verem como não há nada aqui. Por isso o rodado traseiro dos nossos carrinhos é duplo. Para trazer muitas pessoas, respondem.

O camião ainda jaz nas águas do ribeiro. Ao condutor, nem uma multa, uma ida a tribunal para se explicar, a reparação dos estragos sequer. A irresponsabilidade ficou por pagar. Ou melhor, está a ser paga pelos habitantes de Varela.
2 comentários:
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_________Beijinhos!!!_______
Meu caro João Neto
Acreditei que passados 30 anos a vida dos Felupes tinha melhorado.
Puro engano. Continuam a ser castigados pelas posições tomadas ao longo dos tempos (outras histórias). A foto relembra-me trabalhos passados na época das chuvas mas com melhor estrada.
Um dia destes voltarei ao assunto.
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