2.10.06

EM VARELA NÃO HÁ NADA

Não recebe turistas, por estes dias, Varela. Só os da terra, loucos ou bichos se aventuram pelos 65 quilómetros de lama que separam esta pobre tabanka da cidade de S. Domingos, bafejada pela sorte do asfalto. Como se não bastassem os milhões de buracos, para separar Varela do mundo, um irresponsável mandou abaixo a ponte de Cassolol, transformando a região numa ilha de onde se sai apenas a pé, de bicicleta ou de motorizada. Para lá da ponte existe o luxo da caixa traseira de uma ou duas breves camionetas, que ligam Cassolol a S. Domingos.

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Em Varela não há nada, para além de arroz e peixe (a comida de todos os dias) e conformismo. A população, isolada desde Agosto, ainda não foi a Bissau, porque os transportes são poucos e o preço para chegar aos frescos gabinetes da Praça é alto. Também não recebeu a visita de nenhum representante do governo central, que o caminho só dá para os da terra, loucos ou bichos e eles não se enquadram em nenhuma das categorias!

Em Varela também não há imigrantes. Por estrada tão longa é impossível chegar gente aos magotes. Já ali passaram clandestinos, é certo, uma vez ou duas, poucos. Desde então nunca mais, garantem os da terra. Por isso não percebem o "ACUDAM" dos seus governantes, lá longe, em Espanha (onde quer que isso seja) nem as visitas dos jornalistas.

Em Varela não há nada, para além de arroz e peixe. Nem arame ou lata, para as crianças fazerem carrinhos de brincadeira e sonho. Os carrinhos dos mais novos fazem-se agora com uma caixa de medicamentos, dos que chegam pela mão das irmãs católicas de Suzana (só elas ou o padre se aventuram pelo lamaçal – não são da terra, nem são bichos. São loucos!). Uma caixa de medicamentos vazia faz a vez de habitáculo, dois pauzinhos imitam os eixos e seis limões são as rodas.

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Qual a marca destes carrinhos?, pergunto às duas crianças que os trazem presos por cordel (ainda há cordel em Varela!). Chamam-se “Utopia”, respondem. E onde vão?, insisto. À ponte de Cassolol. Vão levar as mulheres grávidas e doentes à candonga que as espera do outro lado. Na volta trarão todos os que poderão (poderiam) fazer algo por Varela. Para essas pessoas verem como não há nada aqui. Por isso o rodado traseiro dos nossos carrinhos é duplo. Para trazer muitas pessoas, respondem.

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O camião ainda jaz nas águas do ribeiro. Ao condutor, nem uma multa, uma ida a tribunal para se explicar, a reparação dos estragos sequer. A irresponsabilidade ficou por pagar. Ou melhor, está a ser paga pelos habitantes de Varela.

2 comentários:

Daniela Mann disse...

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_________Beijinhos!!!_______

Luiz Fonseca disse...

Meu caro João Neto
Acreditei que passados 30 anos a vida dos Felupes tinha melhorado.
Puro engano. Continuam a ser castigados pelas posições tomadas ao longo dos tempos (outras histórias). A foto relembra-me trabalhos passados na época das chuvas mas com melhor estrada.
Um dia destes voltarei ao assunto.