12.2.08

AIR MAYBE - AIR PEUT-ÊTRE - AIR TALVEZ

Antes de voar para África, Ásia ou Europa de leste passe por aqui. No AIR-VALID.COM pode consultar em detalhe o historial das companhias áereas. Ferramentas disponíveis, entre outras:

- Votação dos passageiros sobre critérios de pontualidade, segurança, etc.
- Notícias sobre situações que influenciem tráfego aéreo (greves, meteorologia)
- Aparelhos operados pelas companhias
- Acidentes ocorridos com aparelhos de determinada companhia
- Lista negra das Companhias de Aviação emitida pela União Europeia

Destaque para a lista negra da UE. De todas as companhias referidas só 7 não são de África. Todas as restantes provêm do Congo (com uma infinidade de companhias na lista negra), Guiné-Equatorial, etc. A angolana TAAG também lá está. Uma aventura voar por aqui...

10.2.08

COM QUANTAS CABAÇAS SE FAZ UM BALAFON?

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CORTANDO AS CABAÇAS

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LIMPANDO AS CABAÇAS

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FECHANDO OS ORIFÍCIOS DAS CABAÇAS COM PEDAÇOS DE SACO PLÁSTICO

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INSTALANDO AS CABAÇAS

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TOCANDO BALAFON



ALGURES EM ÁFRICA

O pôr-do-sol encoberto pelo Harmattan.

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LAVAGEM DE GOLFINHOS

Assim como existe lavagem de dinheiro, também pode existir "lavagem de golfinhos selvagens". O alerta da jornalista francesa Nathalie Fontrel, especialista em questões ambientais, envolve negociatas na Guiné-Bissau... A captura de golfinhos nos Bijagós para venda aos parques temáticos é um negócio antigo no país.

Ler AQUI

9.2.08

A MÚSICA DE MORATINOS

Miguel Angel Moratinos, MNE espanhol, deixou-se tocar por África (pela Guiné-Bissau também). No texto que assina hoje no El País há palavras de emoção sincera, mas que não escondem a política e a visão da Europa em relação a África. Vale a pena ler o texto. O julgamento e a interpretação a cada um de vós. A mim soa-me a música para os ouvidos de alguns.

Dois excertos:

Desde nuestros vehículos contemplamos las desesperanzadas imágenes de jóvenes deambulando por las calles embarradas del caótico torbellino urbanístico de Bissau, Kinshasa o Bamako. La gran mayoría vestía atuendos limpios y elegantes, con esos amarillos, verdes y rojos que tan bien representan los colores de las banderas africanas. Mostraban una gran dignidad personal, en absoluto afectada por la falta de horizonte existencial.

Las nuevas generaciones africanas, sin duda mejor educadas que las del pasado, están comunicadas con el mundo exterior. Son conscientes de la desgarradora desigualdad entre países ricos y pobres, pero viven ilusionadas con un futuro mejor. Con valentía, muchos arriesgan sus vidas mediante la emigración. Esos jóvenes han cambiado nuestra manera de acercarnos a África."

(...)

Aceptan al extranjero, a condición de respeto y confianza. Saben que no podrán superar solos sus problemas actuales. Necesitan y esperan ayuda en pie de igualdad. Se impone un reencuentro, una reconciliación.

NOTÍCIAS DA GUINÉ-BISSAU

Não sabemos quanto tempo tem o Bissau Digital, mas para nós é novo!

AQUI

NOVAS ROTAS NA EMIGRAÇÃO AFRICANA

Notícia DIÁRIO DE NATAL, Brasil.

"O barco saiu de Guiné Equatorial no dia 12 de janeiro. O destino original seria Trinidad e Tobago, na América Central, mas a falta de água, comida e combustível fez com que o roteiro fosse desviado e a embarcação foi bater nas pedras de uma praia ao lado de Caiçara do Norte, no distrito de Guajirú.

Embora pequeno, o barco que os transportava tinha uma boa estrutura para seguir viagem. Tinha dois barcos salva-vidas, GPS, celular global, bússula, várias cartas náuticas, captador de energia solar, TV e DVD."

Mais AQUI

UM E-MAIL REDUNDANTE

A administração pública nos países da África-subshariana é inenarrável. Quando entramos numa repartição com o intuito de resolver um problema, somos empurrados de gabinete para gabinete, de senhor X para senhor Y. Só ao fim de algum tempo, depois de muitos corredores palmilhados e muitas portas batidas, damos com o Senhor S, que é a pessoa responsável pelo assunto que queremos tratar.

Hoje não vos falo de administração pública dos países sub-saharianos. Falo antes da administração pública de um país do norte de África, Portugal, um pedaço de terra que gostaria de ser Europeu e que não passa de uma imitação reles de qualquer aldeia perdida no Atlas marroquino.

O reencaminhamento da minha queixa (que verão de seguida) tem o mesmo valor que as palavras que escuto nas repartições públicas por onde vou passando um pouco por toda a África.

- Ahhhh, isso não é aqui. Tem que subir as escadas, virar à direita, seguir em frente, depois virar à esquerda, subir mais um degrau e bater na segunda porta à esquerda!

Factos...

No dia 2 de Janeiro apresentei queixa contra a TAP, junto da Inspecção-geral de Finanças. A companhia aérea fez ouvidos moucos a 3 (três!) pedidos de emissão de uma factura. Não conseguindo justificar tal despesa, decidi avançar com uma queixa contra a TAP por eventual fuga aos impostos.

Depois de muita net palmilhada, lá descobri o e-mail do responsável máximo da Inspecção Geral de Finanças. As voltas que o meu e-mail deu são a prova que Portugal ainda tem muito que palmilhar para ser um país desenvolvido. Tanto ou mais do que eu, para conseguir que a TAP seja multada por não fazer aquilo que qualquer contribuinte honesto deve fazer: passar factura dos serviços prestados.

Eis as voltas do e-mail:

O director da Inspecção Geral de Finanças disse que não era nada com ele. Enviou o e-mail para a Direcção de Inspecção Tributária, que por sua vez também não se julgou competente para tratar do assunto. Não sabendo ao certo quem deveria tratar do dito, este serviço chuta para outros dois o trabalho. O e-mail segue para a Divisão de Estudos e Coordenação e para a Divisão de Investigação de Fraude e Acções Especiais. A Divisão de Estudos e Coordenação, considerando que não é nada com ela, pontapeia para a Divisão de Estudos e Informações. Esta última, por sua vez, reencaminha o e-mail para a Direcção de Inspecção Tributária. O meu e-mail tornou-se redundante, voltou ao início do ciclo, depois de ter passado por 6 (seis!) departamentos.

Para provar que não estou a mentir, aqui apresento os dados.

De: Jorge Rosmaninho [mailto:jorge.rosmaninho@gmail.com]
Enviada: qua 02-01-2008 2:12
Para: jlmartins@igf.min-financas.pt
Cc: Gabinete Director Geral da DGCI; igfinancas@mail.telepac.pt; fale.connosco@tap.pt; Reservas@tap.pt
Assunto: queixa contra a TAP por não emissão de factura

De: Gabinete Director Geral da DGCI
Enviada: qua 02-01-2008 12:12
Para: DSIT-Dir Inspecção Tributária
Assunto: FW: queixa contra a TAP por não emissão de factura

De: DSIT-Dir Inspecção Tributária
Enviada: qua 02-01-2008 16:49
Para: DSPCIT - Div Estudos e Coordenação; DSIFAE-Div de Investigação da Fraude e Acções Especiais

De: DSPCIT - Div Estudos e Coordenação
Enviada: qui 03-01-2008 11:14
Para: DSIFAE - Div de Estudos e Informações
Cc: DSIT-Dir Inspecção Tributária

De: DSIFAE - Div de Estudos e Informações dsifae-dei@dgci.min-financas.pt
Enviada: sex 08-02-2008 16:48
Para: DSIT-Dir Inspecção Tributária Cc: dgci.min-financas.pt

Um destes dias, quando um destes serviços solicitar que pague o que devo, direi que não o reconheço competente para me pedir dinheiro, exigindo que o mesmo pedido seja feito pelo serviço do lado. Talvez assim me livre de pagar impostos.

29.1.08

SERRA LEOA: PÓ, DIAMANTES E PILOTOS DE CADEIRAS

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A capital do país, Freetown, presta-se a jogos de palavras. A liberdade que transpira do “Free” é um embuste. Freetown é um vocábulo de sentido renegado e contrafeito. Podia dar mil e uma imagens para provar esta mentira etimológica. Fico-me apenas por uma, que se me colou à retina e não consegui fotografar. Já lá chego...

As ruas de Freetown são um carrossel de alcatrão, buracos e pó. Muito pó. Pó de poeira e pó de escape de automóvel. Serpenteiam as colinas onde a cidade se ergue, estas ruas. São estreitas, apertadas, mas nela cabem lado a lado todos os automóveis que a teimosia humana conseguir lá enfiar: os que sobem a rua, os que descem a rua e os que se prostram, estacionados, de um lado e de outro da rua. No meio deste caos que dura 16 horas, das 24 que tem um dia, há motos, peões e animais que gincanam a babel automobilística de improvável desentupimento.

E há uns miúdos especiais, que descem em cadeiras de rodas, manhã cedo, as colinas de Freetown. A 60 à hora, atropelando galinhas, pisando peões, quebrando retrovisores e riscando pinturas riscadas de carros velhos e estafados, estes pilotos sem volante desafiam trânsito e buracos, bem instalados nas suas máquinas roladoras. Foram estes miúdos que me explicaram Freetown e que me disseram que, afinal, a única liberdade que aqui existe é a deles, no preciso e exacto momento em que deslizam colina abaixo com as t-shirts esburacadas a adejar ao vento.

São mutilados de guerra. Faltam-lhes braços e pernas, decepadas por minas ou cortadas por instrumentos afiados. O ódio que polvilhou os dias da guerra da Serra Leoa (e da Libéria, ali ao lado) tinha um brilho e uma dureza especial, como a extremidade dos instrumentos que deceparam as pernas e os braços destes adolescentes pilotos de cadeiras de rodas: o brilho do diamante, o mais duro de todos os minerais e o único capaz de se cortar a si próprio e tudo o resto no mundo. Mesmo pernas e braços.

A corrida tem um objectivo particular. Lá em baixo, onde ficam os bancos, há dinheiro nas carteiras de quem usa carteira e vai ao banco. Quem primeiro chegar, primeiro começa a arrecadar as moedas que lhes permitirão, ao fim do dia, pagar a subida da colina. Aí não haverá força da gravidade para dar ligeireza e vertigem à viagem. Ser empurrado, colina acima, ao final da tarde, devolverá a Freetown a mentira penosa e dura que ela é. A liberdade ainda não chegou. A guerra ainda não acabou. Recomeça todas as tardes, quando estes jovens voltam a casa empurrados por quem tem braços e pernas para subir a colina.

UM LUXO DE MISÉRIA CONSTRUÍDO

Para ajudar ao desalento expresso dois textos atrás, leitura da belíssima reportagem de Luís Pedro Cabral no Expresso. Luanda de luxo, chega-me via ANGOLAXYAMI e é de leitura obrigatória para quem queira perceber África. Este continente é, sem dúvida, um case-study.

Como é possível? Como é possível os que não “conseguem ter nada” não se revoltarem contra os que “se incomodam porque não conseguem ter tudo”...

Alguns excertos:

Tudo falta. Tudo se arranja. Só os limitados conhecem como são duros os limites. E guardam isso para eles, como se guardassem um segredo. Os que navegam na zona franca do «cash-flow» saboreiam esta nova Angola que superou o colonialismo português, mas não o arrumou, que saiu de uma longa guerra civil, mas não sarou todas as feridas, que tem abundância de petróleo e diamantes e transborda pobreza a cada rua. E transborda riqueza, como certa roupa interior num vestido apertado. É a Angola dos descendentes da ascendência, ínfima minoria. Alto negócio, carro de luxo, charuto, helicóptero, iate e champanhe, apartamento na cidade e casa no campo, da política de relacionamentos, do apetite sôfrego das economias internacionais.

(…)

Tantas coisas dividem esse mundo deste, só mesmo imponderáveis os podiam unir num problema comum, sublinhando a diferença que os separa: uns incomodam-se porque não conseguem ter tudo. Outros sofrem porque só conseguem ter nada.

(…)

Se escavar um pouco do seu solo, é provável que encontre petróleo ou diamantes. A escavar no seu musseque, só encontra musseque.

TÃO CHIMPANZÉS COMO NÓS

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"Os humanos são mesmo macacos!"

Tacugama Chimpanzee Sanctuary, Sierra Leone

DESAPATIA

Há dias em que uma espécie de desânimo, agonia toma conta de nós. 28 de Janeiro de 2008. Levantar cedo para ir tratar de 1001 afazeres. Antes fazer chamadas para confirmar reuniões e trabalhos há muito agendados. A agonia de uma jornada de desespero e apatia. O receio que o ansiado desenvolvimento não chegue nunca a esta parte do mundo.

DESESPERO

Primeira etapa: confirmar carpinteiro. Do lado de lá do éter, por telemóvel, resposta negativa. “Pardon, mas… eu não trabalho hoje.” O motivo é o jogo. Que amanhã sim senhor…

Segunda etapa: banco. Rodos de gente que se encavalitam uns por cima dos outros. Hoje é dia grande e todos precisam de dinheiro, para gastar, para comprar alegria. Se tudo correr bem, o Syli passará aos quartos de final do CAN. Frente à caixa, a fila de hoje não é maior por haver mais clientes. É maior por haver menos empregados. “Estão em estágio”, como os jogadores do Syli. Ficaram em casa a preparar o jogo, que será transmitido às 17 horas.

Terceira etapa: confirmar reunião agendada há uma semana. Mil desculpas do outro lado da linha. Paciência, mas hoje é dia de jogo. Talvez amanhã, mas vai depender de como correr hoje. Que volte a ligar, cedinho cedinho… Para confirmar. É que se o Syli passar, amanhã ainda haverá festa e dores de cabeça.

Quarta etapa: papelaria. Dispostos no balcão de madeira comprido de 5 metros há cinco empregados. Um metro de balcão para que cada um possa repousar sossegado a cabeça. Primeira tentativa, junto do empregado com ar menos sonolento. Que me dirija à colega do lado. Pastas de arquivo, tem? Estão esgotadas. Saio, não sem antes pedir desculpa aos cinco por ter importunado o merecido descanso no local de trabalho.

Quinta etapa: 14.30H. Regresso ao banco para avançar a empreitada começada horas atrás. Porta fechada. O banco não abriu da parte da tarde. Hoje é dia de jogo. Ninguém avisou de manhã? A decisão foi tomada ao almoço.

APATIA

No livro “A riqueza e a pobreza das nações”, o primeiro capítulo (Desigualdades da natureza) é dedicado ao clima. Nele David Landes tenta justificar porque são subdesenvolvidos todos os países entre trópicos. O clima, húmido e pesado, é apresentado como justificação.

Já fui defensor desta teoria, mas cada vez mais me inclino para uma outra. O subdesenvolvimento é reflexo de uma apatia generalizada, uma falta de vontade de trabalhar apenas porque… trabalhar cansa. E para este facto nem sempre o salário pesa. Quer se ganhe pouco quer se ganhe muito, o importante é “ter o corpo” no local de trabalho, à espera do dia 31.

Há excepções. Há nos trópicos quem muito trabalhe. Mas acaba por ter de fazer o trabalho dele e o dos que nada fazem e por isso também acaba cansado.

28.1.08

AEROPORTO DE DAKAR

Madrugada. Entre um avião e outro (o que me trouxe da Europa e o que me levará à África que Dakar não é) decido subir ao primeiro andar do aeroporto.

Às 4 da manhã, o sossego do restaurante contrasta com a efervescência da plataforma e da pista. À porta, o segurança vai dizendo que sim a pergunta nenhuma, procurando manter na vertical a cabeça. O único empregado da sala, mais assumido, resignou-se e estiraçou-se ao comprido sobre quatro cadeiras. Não se levanta para me atender. Quando pergunto se há que se beba, aponta um frigorífico, ao fundo, e balbucia:

- Allez-y.

Apenas uma coisa, para além de mim, perturba a modorra teatral da sala do restaurante: um pequeno ratinho, que febrilmente se aproveita da apatia dos humanos.

Lá fora há aviões que chegam e partem, num vai-e-vem regular entre dois mundos, o do tudo e o do nada. Dacar, o nada, Paris, Bruxelas, Lisboa, Madrid, Lyon, Atlanta, Roma, New York, Joanesburgo, Milão, Marselha, o tudo.

Cá dentro, entre cada avião que parte e outro que aterra, entre cada cabecear do segurança e cada ressonar do empregado de sala, o ratinho vai-e-vem, também ele, entre o tudo e o nada. Do seu buraco, miséria, para a cristaleira do restaurante, fartura, onde pão de trigo jaz abandonado.

Para não acordar os outros, sugiro-lhe em surdina que coma do pão a maior quantidade possível. Antes comer ele que um qualquer turista, antes de embarcar para casa.

25.1.08

ASSIM NASCE UMA PONTE...

A ponte de S. Vicente avança. Alguns dos pilares estão no ar. Os primeiros 30 metros de tabuleiro já existem. Falta pouco para o Senegal ganhar mais uma província.

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Um olhar mais técnico e mais próximo sobre a obra, AQUI

23.1.08

ESTRADAS DE PÓ

Há uma cantiga interpretada pelo cubano Manuel Guajiro Mirabal que diz assim:

A Morón no vuelvo más, si no hay carretera
¿Y porqué?
Porque una vez yo salí de Ciego para Morón
El camino era de polvo y polvo me volví yo…

Quem assim pensar no grande continente, está bem amanhado! Não sai de casa.

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Algures entre Conakry e Freetown

SUMA GALINHAS – A propósito da falada reforma das FA na GB

Começo este texto por dizer – para evitar mal entendidos e uma eventual ida ao Quartel-General – que nada me move contra as Forças Armadas guineenses, nem contra os homens que a integram.

A famigerada “Reforma das Forças Armadas” guineenses (uma mais na história do país, por isso tem honras de letra maiúscula) parece que vai arrancar em breve.

Não é a primeira. Muitas se fizeram antes. Dinheiro para a desmobilização, uma enxada, umas telhas de zinco para a casa e um “boa viagem até à tua tabanka”. No primeiro golpe, contra-golpe, tentativa de golpe ou rumor de golpe os desmobilizados regressam a Bissau. Sem enxada, sem dinheiro e sem telhas de zinco, mas com uma AK nas mãos. E por lá ficam.

Do pouco que vou lendo e escutando do muito que se tem escrito e falado sobre reformas militares em África, uma de duas condições é indispensável para uma efectiva e verdadeira reforma: um aparelho de Estado forte, que domine o aparelho militar (Angola, por exemplo) ou uma intervenção externa (o exemplo da intervenção britânica na Serra Leoa). Ora a Guiné-Bissau, que não tem um aparelho de Estado forte, nunca conseguirá Reformar as suas Forças Armadas. A mais que… pois, exactamente! Mas a segunda hipótese não interessa a ninguém. Nem aos políticos e Forças Armadas guineenses, que com os olhos da comunidade internacional lá metidos perderiam “capacidade de manobra”, nem à comunidade internacional, que teme uma resposta idêntica à que foi oferecida aos “invasores senegaleses” em 1998.

De vez em quando dou boleia a militares, nas estradas da Guiné-Bissau. Não com muita frequência, mas de quando em quando faço-o com dois objectivos utilitários: ajudar os homens a regressar a casa e sentir a temperatura nos quartéis. Numa das últimas boleias, exactamente conversando a propósito da reforma, perguntava a um militar o que pensava da dita.

- Suma general Tagmé fala, i misti fasi Reforma pa dipus bin panhanu suma galinha. (Como disse o general Tagmé, eles querem fazer a Reforma para depois nos apanharem como galinhas).

Acrescente-se, a bem da contextualização, que o jovem militar era de etnia balanta.

Não conheço esta frase do Chefe de Estado-maior General das Forças Armadas, mas dias depois foi-me confirmada por um jornalista guineense.

A ser verdade (admito que não seja) encarna na perfeição o espírito com que se parte para (mais) esta Reforma. Oxalá me engane!

21.1.08

O CAIXA ADIVINHADOR

Um dia destes entrei numa agência bancária em Tambacounda, leste do Senegal. Já com umas boas horas de condução em cima, vindo de Bamako, tentava, então, trocar dinheiro que me permitisse chegar a Bissau.

Ao entrar na dita agência, exclama o caixa, antes que eu tivesse tempo sequer de o saudar:

- Bonjour mon portugais.

Ou estou cansado demais e deliro; ou alguém me escreveu na testa que sou tuga, pensei.

Passei as mãos pela testa. Não havia vestígios de tinta. Quando o meu amigo caixa, antes mesmo que eu me refizesse do espanto, começou a cantar Linda de Suza, percebi que também não estava a delirar:

- Deux valises en carton sur la terre de France. Un Portugais vient de quitter son Portugal…

Como raio teria o homem adivinhado que seria português?

- Mon frère, mas como é que sabes que sou daquele país pequenino e insignificante ao lado da Espanha.

- Então tu não estás a trabalhar na estrada de Dacar?

Desfeito o imbróglio. A estrada Tambacounda-Dacar, pelos vistos, está a ser construída por portugueses.

LITERATURA DE VIAGENS (EM PORTUGUÊS)

Lidos de uma assentada este fim-de-semana, em que as ruas de Conakry ficaram intransitáveis.

A balada do Níger (e outras estórias de África), de Amílcar Correia
O mais genuíno e útil dos três. Conta as estórias do autor e ao mesmo tempo abre pistas para outras leituras, outros viajantes, outras viagens. Certos aspectos referidos por Amílcar Correia, relativos ao rio Níger e a Inhambane, são coincidentes com o que também já aqui escrevi. Juro que não tinha ainda lido o livro, quando falei sobre estas duas “geografias”.

África Acima, de Gonçalo Cadilhe
Desmistifica África. Afinal, descobriu o autor, não é o continente das doenças, dos canibais e da insegurança. Ainda bem.

Viagens Sentimentais, de Tiago Salazar
Ao contrário dos dois anteriores, mochileiros puros, este livro fica mais pegado aos destinos dos circuitos. No entanto a conjugação das palavras do autor, com as de quem passou antes pelos mesmos locais, encaixam na perfeição e fazem-nos viajar (que é o que se quer).