A personagem que se aproxima de nós é a autoridade máxima neste pedaço de estrada situado já um pouco depois do fim do mundo, aqui onde o Fouta Djalon se deita de mansinho, antes de adormecer no mar. Transporta aos ombros – nos dois galões de sargento – todo o peso, toda a responsabilidade de ser o representante legal da instituição “Republique de la Guinée”. Todo o poder do povo e do Estado. Das leis e das injustiças. Da democracia e dos abusos do poder totalitário.
A continência que faz, acompanhada de um bater de chinelo direito no chão e de um sorriso do tamanho da importância do cargo que desempenha, dão-me a entender que será fácil sair da Guiné e entrar na Guiné-Bissau.
Estamos nenhures, entre Boke (no norte da Guiné) e o Quebo (no sul da Guiné-Bissau), numa picada terciária onde o movimento quotidiano se resume a um land cruiser de transporte público que liga as duas cidades: vai hoje, regressa amanhã. A alegria do militar está por isso justificada: não é todos os dias que caras novas entram ou saem do “seu” território.
Cumprimentos efectuados seguem-se as três perguntas sagradas de qualquer fronteira de país marcado pelas regras vermelhas da estupidez política: quem és, de onde vens, para onde vais. No caso deste sargento, uma outra pergunta impôs-se, substituindo a tradicional quarta pergunta “o que trazes para mim?”.
Assim, de sorriso nos lábios, a última pergunta surgiu inesperada e maliciosa: “quando regressam?”
Para ganhar tempo, porque percebi de imediato que as formalidades estavam tratadas (nem os passaportes o senhor nos pediu), fui directo ao assunto:
- Diga lá o que quer que lhe traga. Mas olhe que isto está mau…
- Traz-me uma garrafa de “rouge” (vinho tinto).
Notei no ar malandro do homem que havia gato escondido com rabo de fora. Entrei no jogo:
- Ah, então o senhor não é muçulmano!... Se bebe alcool…
- Olha lá… Estou aqui no meio do mato… Deixa lá isso da religião!
Rimos os dois e acordamos uma garrafa de vinho português para o dia do regresso. A corda baixa-se para a nossa passagem. Aos solavancos, já em território bissau-guineense, peço a Deus que meta o pecado deste militar na minha conta-corrente. Guardo na folha de caixa que tenho junto do Todo-Poderoso a humana falha deste homem. Por reconhecimento à sua simpatia e por me ter deixado sair do seu país.
Kouremale, entre a Guiné e o Mali
ADENDA: Atravessar fronteiras em África nem sempre é fácil. Implica alguma diplomacia, um certo “savoir-faire” que permita convencer a(s) autoridade(s) fronteiriça(s) a deixar-nos sair ou entrar no “seu” (o sentimento de posse, aqui, é muito importante) território.
Não querendo ser pretencioso, reconheço que o tempo e as algumas centenas de passagens de um lado para o outro das cancelas (ou simplesmente das cordas) me deram traquejo na forma de gerir as regras sagradas do “atravessamento de fronteiras”.
A primeira dessas regras é "não ter pressa". Um homem com pressa, num destes locais, é um homem sem dinheiro, pois o acelerar de procedimentos custa caro. A segunda é nunca mostrar medo da autoridade. Quando um militar africano se apercebe que um estrangeiro treme, é certo e sabido que aproveita. O rol de regras, que trago coladas ao tablié da viatura e que releio sempre que uma fronteira se aproxima, é longo. Fico-me por aqui e entro no essencial da coisa: “o direito de passagem”.
O direito de passagem (também conhecido por cadeaux, droit de tampon, sumo, cola ou fim-de-semana) é uma franquia negociável entre a autoridade e o indivíduo que pretende passar a fronteira. Pode ser paga em dinheiro ou em espécie e é obrigatória na maioria das fronteiras africanas.

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